Friday, 1 February 2013
Arremessado, em cheio
Na lixeira
Já vazam pelas bordas
Faz favor
Levanta 'sse olhar orgulhoso
De quem superou sonho bobo
De quem cresceu perante o mundo
Porque o mundo usa fraldas
Caga nas calças
E anda de patinetes
Mundo é um barril d'uísque amargo
Sabor de ventania
Que tira alegria d'algo a se prender
Faz favor
Calça 'ssa sapatilha
'Squece os papéis amassados
Teu nome no topo
Calcanhar pequeno
Afina as cortas de Sophie
Chor'a música
E sorri
Thursday, 31 January 2013
No avião, a 500 pés d’altura, observava o céu e sentia lágrimas. Tinha uma destinação e não pretendia dar a volta, e agarrar-se a barras de saias e implorar perdão. Tudo que queria era um cigarro. Quando a comissária de bordo passou perguntou-lhe por uísque. Ela lhe perguntou sua idade e a menina das roupas de reuniões familiares sorriu e revirou o manual de instruções no caso do avião cair. “Que caia. Faça-me um favor, Deus. Mate-me, antes qu’eu o faça”. Suspirou. Deixara um bilhete, meio borrado e chamuscado, cinzas do cigarro caiam nele de quando em quando e Foda-se. “Parto hoje. Olha o Sonho, olha o Sonho. Um é três [reais]. Três é sete. Optei por mil. Lembra-se da noite que pisastem neles todos e que olharam em meus olhos e disseram, com os lábios cheios de rancor “Tome suas pílulas, morra, faça chantagem, vá para a França, torne-se prostituta, drogada”. Vagabunda. Gabriele Colette, és tu que me chamas? Não, és tu quem me grita na rua. Ouço o eco. “Vagabunda”. Meias desfiadas, pulseiras com spikes, não adepta a religião, músicas, canto, banda, bares, noite, praças, artes, filosofia, artista, teatro, atriz. Prostitua. Drogada.
Não sabes o que é viver. "Me dê um trabalho que eu ame, um apartamento pequeno, comida suficiente, música, um simples alguém e serei feliz. Prefiro uma vida curta, mas bem vivida do que passar a vida sentada numa mesa querendo um dinheiro que nunca terei, uma vida que a tevê vende, um sonho induzido pela mídia. Prefiro morrer correndo atrás dum sonho e saber que existir sonhando me rendeu mais vida do que mil tuas" "Não sabes nada. És patética. Vida é dinheiro." "Vida é paixão. Amar o que faz e saber qu'alguém tirou uma lição da tua vida. É viver ao máximo, mas viver. Não existir"
O avião, ele vai rápido em direção ao meu sonho. “Nunca conseguirás o visto. Não tens talento.” “Nunca conseguirás nada.” “Tens uma péssima voz” “Escreves mal” “Artes nunca lhe sustentará” “Não sabe o que é viver” “És patética, feia, ridícula. Morra, suma.” Vagabunda. “E este batom? Pareces uma prostituta barata. E este shorts? Foda-se a meia calça. Olhe esse desviado. Queres que lhe passem a mão. Vulgar”. Fumo um cigarro. Sinto a nicotina no sangue, n’alma, melhor amigo. “O que é isso? Virou vulgar? Vai virar puta?”
O avião continua. A carta perde a essência e se volta e revolta para a mágoa. “Nunca conseguirás sair daqui e ficar na França. Não consegues. Não pode. Vão te expulsar. Mandar de volta. Ninguém vai te querer como atriz, cantora. Nem como pequena. Um em um milhão,. Tu não és este” O meu especial é banal, essencial pra se perder na multidão. Ser aplaudido por duas pessoas contratadas com o dinheiro do pão, para chorar no porão alugado mais tarde.
Fujo. Torno-me clandestina. Torno-me Sol. Torno-me pequena, invisível, caixa de sapato. Fujo de país em país. Vou pr’Inglaterra. Choro por apartamento pequeno no meio do nada, Trabalho em três turnos, toco no meio da rua e vendo flores. Vendo amores a quem ama e desejo amar, mas o coração se perdeu no avião no bilhete. Vagabunda. Flores. Coloridas e pequenas. Como sonhos. Pequenos e fáceis de se acabar.
Acordo cedo, metrô m’engol’alma e sorrio pro violão qu’é atingido pelas almas avulsas. Caixa de sapato. Asas de papelão. Governo na televisão. Fugitiva. Escondida. Humilhada. Conversas com pombos, cafés doados e reflexos na janela. Cantando pr’aquele belo quadro abstrato que me sorri de dentes amarelados e olhos laranjas, quando deveria ser um parque. Chamo-a de Amelia. Somos amantes. Vagabunda. Ideias são a prova de bala. Minh’alma é composta de cores, e dores, e nãos, e decepções, e de incapacidades, e de viver em apartamentos sujos, e de ser renegada, e de tocar em bares de becos, e de m’embebedar todas as noites, e de me viciar em ópio, heroína, cocaína, fugir da realidade, me afogar em incertezas e ver no colorido que tudo dá certo. No meio desse lixo todo encontro uma fagulha num violão e num microfone ruim e no John, o bêbado do terceiro divórcio que aplaude de pé, cambaleante, minha terceira música e me pede em casamento.
No meio de todo esse desespero há felicidade pois a música ainda toca, até para quem não há ouve, lá ela está. E sempre estará.
Thursday, 24 January 2013
Dedos sujos, olhos límpidos. E por quê deveria de criar calendários se ao serem redistribuídos em praças públicas seus diários tomariam conotações de mundos diferentes? Que dia seria de que ano de que horário em que mundo quando seria lido por qual coração? Aquelas palavras seriam felizes, tristes, chamuscadas, rabiscadas, chuvosas. Seria noite, manhã, madrugada, dia de semana, horário de expediente, indiferença pelo atraso, pausa para o café. Seria homem, mulher, criança, branca, negro, índia, China, Marte, Júpiter, Via Láctea, quem sabe mais além. Quem se importa. Quem?
Dedos sujos, olhos límpidos. O tempo não existe. Relógios existem. Em que língua enxergas isso? Em que língua me corrompes as danças? Em que dialeto discordas? Por que não acreditas? Ela não existe. Eu não existo. Nem tu. Nem nós. Nem eles. Maldita gramática. Bendita ortografia. Quem nos inventou. Seria Deus? Ou Deus nos inventou depois de nós o termos inventado? E onde entra o Céu e onde sai o Inferno? E o Futebol? A copa chega, ano que vem. Belo estádio. Ela pintou aqueles espelhos quebrados com o sangue dos pulsos, mas não morreu. Ideias não morrem. Suicidas não morrem. Ídolos. Heróis. Mártires. Terras. Planetas. Sistemas. Teorias. Teólogos. Filósofos. Eu e você. Amor. Tesão. A morada na terra t’eterniza, meu bem. A morte não te atinge, não te aflige. Te torna inalcançável. Mescla-te em árvore, tomba na floresta, em silêncio, fecha os olhos, reza pela ignorância dos animais e deix’assim.
Dedos sujos, olhos límpidos. Bilhetes e bules. E cartas. E mapas.
Dedos sujos, olhos límpidos. Onde começa o sim e onde termina o não? Onde começa o amor e onde termina a aflição? Mas quem haveria de se apaixonar por olhos castanhos? De espelhos cobertos por ventanas, sonhos toldados em olhares vendados e as horas que passavam diferente no relógio do sol dos pássaros. A liberdade era mais tangível quando inatingível.
Dedos sujos, olhos límpidos.
Sujos.
Suja.
Na sarjeta, na valeta, nas ruas, nos becos, no esquecimento, na ponta da língua, nos sussurros em reuniões familiares, abandonada por Deus, esquecida pelos homens, amante de si, traída e trocada por moedas foscas. Só queria um relógio que me desse a hora certa de morrer.
Sunday, 20 January 2013
Monday, 7 January 2013
Wednesday, 14 November 2012
Palmas a todos.
Aqui estão os campeões, com suas bandeiras em ombros e cicatrizes em cílios secos.
Pézinhos respingados nas noites de Natal cantavam baixinho marcas de terra molhada nas blusas brancas de paz na Terra, oh, tão amada. As brasas de cigarros escoavam nas paredes, trazendo a realidade a tona enquanto sorrires mãos calejadas, porém doces, ao redor de pescoços e choras cantos fatigados de pardais extintos em sonhos antigos.
Quão belo és teu olhar de canto, pequeno, olhando gigante um mundo descolorido? Reais são teus lábios e doces ilusões que lhes tingem as vitrines, as portas de tinta descascada e madeira apodrecida que batem-se uma nas outras, ecoando à corredores vazios. Vazios? Cheios. Lotados.
Catedrais que vem de longe balançam pontos manchados em amargos quadriculados de concreto pisados por dias validados e âmagos vencidos.
Derrotados, seu Capitão, com sua corneta nas unhas e bandeiras nas condecorações. E mortos, estilhaçados, com milhões de pedaços, pouco sorridentes, de dentes amarelados e dedos tingidos por tabaco enrolado antes da batalha.
Orem mais alto, crianças.
Os céus escondem os ouvidos a banhados em glória. Deix'o louvor ir a sete palmos, enquanto, de pé, mantemo-nos, espadas em punho.
Wednesday, 7 November 2012
Com-ple-ta-men-te
Cansada, exausta poderia caber-lhe, desesperançosa, com olhos partidos e coração em prantos, triste, entristecida, repartida, chorosa, desamada, desalmada, perdida, não mais querendo ser encontrada, de olhar vazio mente cheia, iletrada, sonhadora, sinônimo de posse, antônimo de possuir, fria, reesfriada, tomada pela gula, isenta de sorrisos, decepcionada, ela estava. Ela era. Completamente.
Toda desencontrada, juntando pedacinhos de si pelos azulejos frios e coloridos, sorrindo tão obcenos e vívidos a seus olhos de botões laranjados. Cegando-se àquela pilha de jornais, senhora, embaixo da escada, tornando-se mortes desbotadas e notícias de vidas acinzentadas. Queria jogar-se em olhos baixos cantando baixinho uma melodia suave preenchida de bilhetes colocados em cantos, de tantas cartas cantaroladas agora usadas como marcadores de páginas em seus livros repetitivos, repetidos. Jogava consigo, na frente do espelho, a boca aberta, os olhos fechados, vi'alma cheia de cores e formada por sabores líquidos e transcendentes que tingiam-lhe o céu d'olhar. Quando com a sola arranhada dos pés no solo arranhado qu'o asfalto se era, seus dentes falavam a todos de sua felicidade doce serena e pacata, escondida em potes de biscoitos arredondados com olhar de caramelo a renegar as mentiras que sua boca lhes vendia aos barrancos sem permissão lha dada. Com aquele sorriso pequeno qu'expandia o quarteirão, vivia de canto, jabuticabas entre globos oculares, tão cansada de descaso a apresentar-se que nem fazia caso, por dentro, remoía, mas ao redor todos lha diziam feita de rosas.
Completa, mente.
Friday, 26 October 2012
Onde estas indo, amor?
Onde andam todos teus sorrisos e tuas alegrias e sóis particulares? Onde esqueceste toda aquela Esperança que cegava a nossos olhos, durante todas aquelas insônias a nos manter companhia?
Lembra-se da Esperança? Ah, Esperança, aquela moça bonita que te sorriste da esquina, cabelos leves presos num coque mal-feito, os olhos despenteados, olheiras profundas, o sorriso fatigado e quebradiço como as copas das árvores que a salvavam do sol que ferir-lhe-ia a pele alva, cor de dias de verão. Esperança, com seus pés machucados e lábios rachados, aguardando-lhe no fim do túnel, a lanterna na mão. Esperança menina, menino, criança boba e ingênua, que lhe alimenta o sol d'olhar a cada baque surdo do ponteiro dos segundos. Ah, Esperança. Perdeste-a no caminho, amor? Onde andas você, por onde andas, com esses pés presos em sapatos tão pequenos, com buracos que lhe castigam com o vento e aquelas poças que vêm-lhe saudar nos dias chuvosos. Por onde andas, sobre esses trilhos pegajosos, úmidos e escorregadios, sendo interrompidos de sua calmaria monótona por um salvador de almas perdidas a traçar o mesmo caminho que ti? Por onde andas, pulando para o lado no momento preciso, tropeçando-se por sobre si mesmo nos meios-fios rachados de calçadas de mal acabamento, daquele cimento frágil, que cede a mais duas bicicletas, três pares de pés por hora? Por onde andas, com aquele sorriso de canto, com aquela marquinha onde termina teu pescoço arranhado por tuas esperas insaciáveis e ansiedades descontroladas e começam teus ombros tingidos por aquelas pequenas sardas que o sol deu-lhe de presente? Por onde andas, com aqueles cabelos compridos que jogavas ao vento e aquela rouquidão macia de sono que te acompanhava nas ligações matinais que insistias em me fazer nas manhãs preguiçosas de domingo, mesmo deitado na cama ao meu lado? Por onde andas? Meus bares de luzes fracas e inconstantes não se apresentam belos como um dia o fizeram e suas cantorias embriagadas me são muito altas, muito agudas, muito graves. Minhas noites boêmias são tão solitárias, sorrindo às duras penas, à consolação, ao entendimento e ao compadecimento da minha companhia a garrafa e dos sorrisos espassos que a garrafa, meio trincada por ter me escapado das mãos quando aquela bituca de cigarro veio me cumprimentar a perna desnuda, manda-me de olhos fechados, com aquele selo de marca pequena meio sem cola já nas bordas, de tanto minhas unhas por ali passearem. E a solidão que me vêm com estas noites e aquelas manhãs e esses dias me sufoca e me abraça e me acalma e as fotos me julgam em seus porta-retratos d'um nove e nove e eu que nunca fui ligada a literatura brasileira busco consolo em Olavo, em Fernando, em Cecília, em Castro, em Cora, em Mário, em Caio, e aos poucos, meio desesperada pelos dias ensolarados que chovem sobre mim, tento substituir-lhe as doces declarções embrigadas por momentos a tanto custo, que minhas contas em livrarias me tiram o pão da mesa para alimentar minh'alma e saciar essa fome de ti.
E por onde andas?
Os pássaros não são tão ligados a discussões religiosas ou comentários políticos, os gatos não me sorriem sonolentos quando passam-se mais de 48h sem pregar os olhos e ainda não podem-se cessar os assuntos impertinentes que as madrugadas carregam em suas costas, os estranhos não aceitam roubos de jornais e de estatutos e estátiscas em meio ao metrô lotado, os cobradores não me olham com um carinho desleixado quando um lado do meu cabelo cai, deixando-me com aquele aspecto de pequenos anos e pequenos olhos a vagar pelas aulas de Educação Física, porque simplesmente não consigo prendê-lo de forma a ser aceitável na sociedade como cidadã passável para trabalhar numa firma pequenina e familiar. As paredes não me respondem com tanto ardor e ignoram todos meus poemas pobremente declarados, ao invés de completá-los. As paredes não m'entendem como tu fizeras. Elas não desafinam no chuveiro aquele refrão chiclete daquela banda irlandesa desconhecida que o irmão do amigo do teu primo ouviu falar quando esteve por lá numa viagem a negócios e trouxe uma cópia do CD, lotado de músicas encantadoras com aquele sotaque que insistias em imitar e falhar miseravelmente para então desafinar de propósito quando eu entrava no tom. Elas não tiram os sapatos para dançar na chuva que do nada veio, às cinco da manhã, quando a noite boêmia dava espaço a uma caminhada trôpega para o apartamento pequeno que dividíamos no fim daquela rua de iluminação ruim. Elas não sorriem aqueles dentes brancos, com aquele tanto de pasta de dente no canto direito da boca. Não, elas não sorriem bonito daquele jeito torto que fazias.
Por onde andas?
Te sinto a falta e a cama 'tá gelada e os meus pés e minhas mãos e minhas luvas e meias são tão inúteis quanto amantes e amores passageiros e tudo é frio e o sol entra pela janela e as paredes roubam o calor para terem forçar de m'ignorar com meus poemas e minhas angústias e o café esfria tão rápido e o vinho se esvai tão rápido e meus lábios ficam daquele tom de roxo que sempre te fizeras sorrir aquele sorriso bonito com lábios manchados daquele tom de roxo e os cigarros queimam as pontas de meus dedos e eles estão amarelados e as unhas, tão quebradiças e meus olhos refletem todo aquele brilho lunar, mas não o refratam e eu choro baixinho com medo que tu escutes a toda essa distância e sorria aquele sorriso triste, de partir o coração e tenha medo de voltar e ver mais umas daquelas lágrimas tingindo minhas bochechas pálidas daquele tom de preto que sempre te fizera sorrir aquele sorriso pequeno, que secava minh'alma e aquecia meus dias e era meu sol. E todas as cartas pra ti estão enderaçadas a lugar nenhum e todos os LPs estão perdidos pelos assoalhos e meus quadros estão com a tinta tão seca que são respingos d'um talento.
Por onde, para onde andas? Por que não ficas?
Hei, volta.
Hei, fica.
Hei, vamos para onde quer que seja, juntos, com a tua mão quente na minha gelada e vamos sorrir um pouquinho aquele sorriso bobo e pintar o céu de vermelho com aquele teu tom azul de olhos melancólicos.
Friday, 19 October 2012
Tuesday, 2 October 2012
Monday, 24 September 2012
Oh, the human being. We are so young. We were so young. We were so beautiful. So great. We were meant to be the world, but we got ourselves caught in tiredness and lonelissome yearns. We've lost our shining path by taking pills instead of chances, going to the red when it'd be the green, dancing in summer showers, dipping our swollen feet into translucent mud, digging into our own shit and, widening, madly, smiling, hoping. So, so tired of our own eyes and lamps and streets and no friends and lies and heavy, heavy dreams we play, we smoke, we drink, we go for a ride on the wild side. We go for pirouettes into life edges and we fall into eternity, widening, madly, smiling.
Oh, we're just so tired.
Wednesday, 25 July 2012
I'd rather life in an imoral world, fucked up 'till its top, but being in here, but being this. Fuck it. Fuck it all, fuck them all. Fuck normality. Where's the sweat? The blood? Fuck my imaginary life, with my imaginary perfect husband and my bastard children and high society meets. Fuck this crowd intoning my bogus name. I want pain and booze and drugs and thrill and bare feets and undressed souls and wearing out skeletons and whimpers and loud, loud music, so fucking loud that hurt my ears and knife my bosom, and long hair and tight clothes and vomit and honesty. I want to be alive.
Even if just for once.
Saturday, 21 January 2012
Saturday, 3 December 2011
Ela sorrirá. Ela irá te confundir, fará sua cabeça girar. Será irônica, mal-educada e desmanchará marcas de batom pela tua pele alva. Desviará os olhos dos seus, te encarará em silêncio, ignorar-te-á. Ela rirá alto, sorrirá de canto, arqueará uma sobrancelha. Instigar-te-á a desvendá-la e nunca o permitirá fazê-lo. As mãos delas encaixar-se-ão perfeitamente nas tuas, mas ela nunca deixará com que tu saibas. Ela não se apaixonará, não se encantará pelo teu sorriso, mas tu o farás. Você reparará no modo como seus cílios escuros projetam uma leve sombra sobre sua bochecha corada, como seus lábios movem-se ao falar, como a cor dos olhos parece contrastar com a pele clara, como sua risada faz surgir borboletas esvoaçantes em teu estômago, como seus olhos brilham e faíscam e sorriem enquanto ela observa os carros passarem rápidos abaixo de si, na tua varanda, com teu moletom, usando o teu sorriso. Ela terá um coração partido, remendado, um âmago vencido, uma maquiagem borrada, uma alma que só quer viver de presentes, e você a amará. Amarás a todas as remendas, as dores, os amores validados, as noites perdidas, os relógios sem horas, o cheiro inerte no pescoço, as marcas de batom, os sons, a respiração, o palpitar desenfreado pelo peito, a complexidade. A amará por querer consertá-la, por querer tornar as remendas em seu peito suficientemente perfeitas para que ela possa respirar. Consertará seus olhos tristes, suas faces, suas manias, suas mentiras. Caçar-lhe-á o olhar em meio à multidão e encontrará tanto de si, tanta complexidade, tanta semelhança, tanta dor, tantas sombras, tantas marcas, tantos remendos, e a amará, simplesmente. Talvez num dia de chuva, quisesse simplesmente entrar na vida dela, fazer amor com ela até que todas as nuvens sumissem do céu da Inglaterra, e foda-se. Talvez só quisesse fazê-la sorrir de verdade, numa manhã de domingo, com a tv desligada, onde nada pareceria pertencer àquele momento, onde toda a quietude seria quebrada por um mundo distante, desconectado, um bebê a chorar no andar de baixo, um carro freando bruscamente, um cachorro latindo. Talvez só quisesse perder-se em meio aos lençóis claros, rasgados, esquecidos. Talvez só quisesse perdê-la e tê-la no chão da sala, no quarto, na cozinha, na rua, no quintal. No coração. Talvez só a amará por tudo que ela não é e por tudo que sempre fingiu ser.